Me sinto um pouco perdida quando o assunto muda de música, para conhecimentos geográficos. Cada um, com uma grande experiência de vida, já passou por tantos lugares, e eu mal saí dos Estados Unidos. Na maioria das vezes me sinto perdida ali, sou a mais jovem entre eles, e a mais jovem jurada de programa musical, tudo isso devido ao meu currículo quando entrei para Julliard. Devo tanto ao meu mestre, Smith, que me apadrinhou e fez questão de me dar um bom cargo a partir do meu primeiro mês lá, além de no primeiro ano conseguir um posto como esse, jurada de programa de talentos, tendo como contato seus amigos e colegas. Mas a minha base de trabalho é somente selecionar os melhor para que eles vão para a etapa da televisão, onde não será eu que irá escolher algo.
Me considero uma pessoa de sorte, melhor dizendo.
O que me mata é andar de avião para Los Angeles quase toda a semana. Agora o reality show ainda está em fase de audições, para pegar somente os melhores, e eu só posso participar das que estão acontecendo mais próximas de Nova Iorque, ou seja, o máximo que venho é Los Angeles, mas só porque meus tios vivem aqui, e tem pessoas responsáveis por mim, já que ainda não completei minha maior idade, 21.
-Falta cinco minutos para entrarmos na bancada. - Avisa a assistente.
Fico brincando com meu copo descartável vermelho, pensando nas provas que tenho semana que vem. Tenho que treinar muita coisa, e estudar outras, e o tempo está parecendo estar tão curto.
Sentamos na bancada, eu ao lado de Alicia, e nas pontas estão Kennedy e Jace. O pessoal da assistência foi chamando os concorrentes por números, e a cada um que passava, nós anotávamos algo e conversávamos rapidamente - ás vezes eu não tinha muita voz para decidir algo, então apenas ficava quieta e assentia com o que eles falavam, mas posso dizer que perdemos grandes talentos. Mas na maioria das vezes é uma coisa legal de se fazer, nos divertimos bastante.
-Número 1384. - Levanto meu rosto que estava fitando a folha, e quando vejo o candidato, o acho engraçado, mas ao mesmo tempo fofo.
-Qual seu nome querido? - Pergunta Alicia.
-Peter. - Responde um pouco tímido, característica normal de quem se apresenta.
O assunto não durou, porque nosso trabalho era apenas ouvi-lo cantar e julga-lo se sim, ele entra, ou não, ele não entra. Sua voz foi magnificamente ampla naquele pedaço reservado do estádio. Ele tinha potência, seus graves, agudos, eram usados na hora certa. Confesso que não tinha esperado tanto dele, mas quando o ouvi cantar, vi que me enganei. Sua tonalidade de voz é perfeita, e eu garanto que se ele passar, ele vai pras finais. Meu voto com certeza é sim!
O final da música chegou, e todos nós nos olhamos. Mostrei meu voto, que muitas vezes não é posto em questão, e vi que Jace estava em dúvida. Alicia e Kennedy haviam votado não. Torci para que ele votasse que sim, assim Peter poderia cantar outra música. Mas não foi o que aconteceu, ele apenas perguntou a idade dele, ele respondeu, e ele deu seu veredito: não.
A cada não que as pessoas ganhavam ali, eu me colocava no lugar. O que eu sentiria se fosse comigo. Provavelmente me devastaria, cairia em choro no palco, seria tirada a força dali e perguntaria o que eu fiz de errado. Costumo ser dramática quando as coisas não dão como planejadas.
No backstage eu fui "convidada" a buscar duas águas para Jace e Alicia e enquanto estou indo atrás da água e entro no pequeno estabelecimento do estádio, encontro o mesmo menino, Peter, que não passou para a seleção. Ele conversava com um cara mais velho que ele, e parecia bem devastado, mas seu olhar não era de perdedor, era de quem iria tentar muito mais vezes ainda, até chegar no topo do mundo, e eu posso dizer que enxerguei um grande batalhador e vencedor nos olhos dele. Peguei as águas e o encarei enquanto saía, ele me olhou rapidamente, mas nada demais, então segui meu caminho.
Uma menina encostou no meu braço levemente, lembrei dela e da cor dos seus olhos, que agora estavam vermelhos. Não lembrara se ela fora aprovada ou não, então apenas quis ser carinhosa e a abracei. Ela chorou no meu ombro e eu encostei no seu braço quando nos desvencilhamos.
-Eu queria tanto...
-Hey, calma! - Peço e ela sorri de leve, já melhoramos um pouco. - Deus fecha uma porta para que mais três se abram. Novas oportunidades irão surgir, você verá.
-Obrigada. - Ela limpa a parte de baixo dos olhos e olha pra cima respirando fundo. - Eu não costumo abraçar desconhecidos.
-Eu não costumo falar com candidatos, mas me sinto sozinha nessas viagens. - Agi como se contasse um segredo e ela gargalha gostosamente.
-Obrigada mais uma vez por ver que eu ainda tenho esperanças.
-Todos temos. - Observo a menina ir embora, e viro-me para entrar na parte do backstage, mas dou de cara com aquele garoto, Peter, em minha frente.
-Com licença. - Peço com educação.
-Eu ainda tenho chances? - Ele faz a vaga pergunta e eu fico o encarando para entender. - Quer dizer, eu ouvi o que disse para a menina. Quero saber se tenho chances.
-As suas são maiores do que muitos, você está no caminho certo quando escolheu a música. Você manda bem Peter, e acredite que as chances não acabaram, a vida é muito longa e muitas surpresas vão vir. - Sorrio pra ele e ele sorri de volta. Seu sorriso é tão lindo quanto o de uma garota vaidosa.
-Obrigada. Lembrou meu nome? - Peter ri como se isso fosse algo impressionante. - Mas gostaria que me chamasse de Bruno.
-De nada, e eu lembrei sim. Tenho uma boa memória. - Sinalizo minha cabeça.
-Você não é muito jovem para ser jurada?
-Muitas perguntas, Bruno! - Fecho os olhos assentindo. - Sou mais jovem do que pensa, mas muito mais inteligente do que imagina.
-E muito convencida. - Ele ri descontraído. - Nos vemos por aí...- Ele estende a mão, creio que não concluirá sua frase porque está esperando eu falar meu nome.
-Hanna. - Coloco a outra água na outra mão e aperto a mão dele olhando nos seus olhos.
-Nos vemos por aí, Hanna.
-Creio que não, ao menos que more em Nova Iorque! - Rio e ele arqueia as sobrancelhas.
-Meu irmão mora lá. Nos vemos, doce Hanna.
July, 22th 2004 - Center Park, New York
-Se meu preferido não fosse flocos, seria chocolate. Sorvetes me fazem sentir melhor. - Amy, minha melhor amiga e quase irmã, estava comendo um sorvete de casquinha, na verdade o segundo.
-Eu faço você se sentir melhor. - Arqueio as sobrancelhas e ela ri.
-Também, mas sorvete é um dos melhores amigos da mulher, além de filmes românticos e música.
-Melhor amigo da mulher depressiva. Meus melhores amigos são música e livros.
-E eu. - Ela dá um sorriso aberto e eu abro o meu na medida do possível.
-Hanna Adams Miller. - Amy diz meu nome completo e a única coisa que eu sinto vontade é de me tocar dentro da fonte de água. Odeio meu sobrenome porque minhas iniciais formam HAM¹, um apelido infame que tive no ginásio, e eu o odeio. - Você precisa ver como a vida é bela, há tantas pessoas...Há um destino, amiga.
-Eu sei. - Bufo enquanto sento no banco em frente a fonte. - Eu queria só ser feliz.
-Você é uma das pessoas mais sortudas que eu conheço, e olha que eu conheço muitas pessoas. Fala sério. Você tem uma família perfeita, estuda na Julliard, está com seu destino quase feito, porque a emissora quer o contrato com você.
-Não é tão simples. - Giro o sorvete que está na minha mão.
-Não vai me dizer que vai falar do seu último namoro! Steve foi um idiota, e você está sendo uma nesse momento. - Ela permanecia em pé, me dando um sermão, me senti novamente na infância quando levava muitos da minha mãe por aprontar como um garoto. - Vivemos em Nova Iorque, estamos no Central Park, tem muitas pessoas. O amor da sua vida pode estar aqui, mas você não se abre. - Ela bate levemente em minha cabeça e eu ponho a mão onde ela bateu. - Acorda pra vida, Ham.
-Se me chamar de Ham, quem vai ter que rezar para acordar vai ser você, assim que eu lhe colocar no hospital. - Ela ri. - Não brinque comigo, sou do Bushwick².
A conversa foi levada para o mesmo rumo, o de sempre, sobre eu não ter tido tantos namorados, um pra falar a realidade. Steve foi o único cara com quem namorei de verdade, não que eu não pudesse ter outros, na verdade já houve oportunidades, mas nada é a mesma coisa, eu preciso de meu tempo, poder fazer minhas coisas sem satisfações, ser livre!
Mas parei a conversa quando de longe avistei uma pessoa conhecida. Peter - ainda lembro o nome dele - me olhou no mesmo momento e sorrimos um para o outro. Pedi licença para Amy, e entreguei meu sorvete - sei que quando voltar não terá mais meu, porque ela terá comido -, e fui ao encontro dele. Suas vestimentas e cabelos estavam diferentes de quando eu o conheci, há quase um ano atrás, mas eu o reconheceria em qualquer lugar.
-Doce Hanna. - Ele sorri. Eu fui tão significante para ele? - Como está? - Sua mão se estende para que eu aperte, e assim fiz.
-Estou bem Peter, e você?
-Estou ótimo. - Sorri e olha para os lados. - Falei que um dia nos encontraríamos, não?
-É, falou. - Eu rio lembrando daquele tempo. - Está tentando mais shows de talentos?
-Me inscrevi para alguns, mas nesses mal passei na seletiva inicial, então só estou tocando nuns bares, escrevendo e tocando algumas coisas e largando nas gravadoras, mas a vida não é tão fácil para alguns. - Nesse ponto eu agradeço pela vida ser boa comigo, mas não se pode ter tudo, não é?
-Você vai conseguir, sei que é um vencedor. - Recebo seu sorriso de volta. - Não sabia que escrevia.
-Você não sabe tanta coisa sobre mim. - Assenti, pois é a verdade, não sei basicamente nada dele. - E você, perdida por aqui?
-Vim dar uma volta, um dia tão lindo não merecia ser gasto em casa com livros e música. - Rio e ele me acompanha.
-Então é isso que faz? Lê e escuta música?
-Não... Leio, estudo muito, e faço a música! Eu toco instrumentos, afinal é pra isso que estou estudando. - Rio descontraída e ele me olha, parecendo impressionado.
-Qual instrumento toca? - Pergunta.
-Piano, violão, e violino por enquanto. Arrisco umas batidas na bateria, mas não tenho tanta coordenação para isso.
-Também toco! Minha família é de músicos, então sou praticamente influenciado desde pequeno.
-A família do meu pai tinha uma banda nos anos 70, e então todos tem uma paixão mais forte pela música.
-Entendo...mas, onde estuda? - Ele coloca a sua mão no bolso da calça jeans.
-Na Julliard...
-Nossa, não sabia... - Ele pareceu realmente impressionado.
-Você não sabe muita coisa sobre mim. - Pisco para ele usando a mesma frase que ele me usou há poucos minutos.
April, 12th 2007 - House of Adam's uncles - Los Angeles, Califórnia
-Você foi naquele lugar? - Pergunto novamente para Bruno, que está sentado na cama, usando uma cueca e os cabelos molhados, por a recém ter saído do banho.
-O que acha? Não! Eu não fui. Pra que eu iria... eu tenho você, Hanna. - Ele me fala o mesmo discurso de minutos atrás, quando encontrei o papel da casa de massagem.
-Se você não estiver contente comigo, nós podemos conversar. Estamos há tempo suficiente para termos essa intimidade.
-Tempo que você passa mais em Nova Iorque do que aqui. - Ele desconta minha ausência, motivo maior de nossas brigas.
-Será porque eu tenho bolsa parcial na Julliard, e eu moro em Nova Iorque? - Ironizo.
-Não vejo a hora dessa sua maldita faculdade acabar... - Bruno comenta baixinho, o suficiente para que eu pudesse escutar.
-Pelo menos eu estou estudando para tentar ser alguém na vida. - Fecho os olhos tentando conter minha raiva. Bruno me olha, ele odeia quando eu faço isso, não preciso esfregar isso em sua cara, mas ele não me deixa opções.
-Se a faculdade for sinônimo de virar uma pessoa chata, eu prefiro não estudar mesmo! - Sim, ele me chamou de chata. Respiro fundo e fecho a porta que estava encostada. O que fazer?
-Melhor ser a chata do que não ter nada para comer durante a semana. - Isso estava passando os limites, estávamos pior do que crianças de escola brigando por lanche. Seu olhar bate com o meu, eu sei que não é fácil pra ele, eu sei que pego pesado, mas eu não posso deixar ele falar comigo assim.
-Nós somos um casal, Hanna? Porque acho que nós dois não passamos de estranhos que se encontram semanalmente. - Respiro fundo e ele levanta da cama.
-Você era diferente quando lhe conheci, entendia minhas prioridades, até me ajudava com os estudos ás vezes, com notas musicais... Onde foi parar aquele Bruno?
-Talvez no mesmo lugar que você pôs a Hanna que eu conheci. Aquela menina doce, carinhosa, que não pensava só em ser alguém e se formar. Que aproveitava...
-Chega. - Digo chorosamente.
Ele sempre sabe o ponto que me atinge. Eu não sou nenhuma louca por serviço, e nem por estudos, mas eu preciso estudar para ter as coisas que eu sonho, para ser alguém. Ele parece não entender mesmo... Eu sei que tenho estado mais ausente do que presente, mas as nossas cidades não são uma ao lado da outra, nós não somos vizinhos, nada está tão fácil como era em 2004. Ano do inicio do nosso namoro. Levo minha mão para o olho, não quero chorar.
-Quer que eu vá embora? - Pergunta ele caminhando para perto da sua mochila de roupas.
-Sim. - Respondo com o ego ferido.
-Me escute, Hanna. - Bruno se aproxima novamente de mim e leva suas mãos nas laterais do meu rosto e olha nos meus olhos. - Nós dois estamos cansados disso, então, no momento que eu cruzar aquela porta, saiba que eu não pretendo mais voltar atrás.
Era uma coisa para pensar. Vão ser quase três anos de namoro indo por água abaixo, mas eu tenho escolha? Ele não me aceita, quer que eu praticamente pare de estudar para viver as suas aventuras de um lado para o outro, pulando de gravadora em gravadora ouvindo milhares de nãos. Não quero ser assim, não quero esse futuro pra mim.
-Você não precisa responder, eu entendi tudo. - Bruno dá as costas pra mim, pegando sua roupa sobre a cadeira.
Ele se veste e coloca sua toalha molhada dentro de sua mochila cheia. Seus cabelos nem foram penteados, ele apenas passou os dedos e olhou-se no espelho antes de sair. Nenhum tchau foi dito, nossos olhares se cruzaram e ele seguiu seu caminho para sua vida, novamente solitária, e eu fui arrumar minhas coisas para voltar para Nova Iorque, afinal, amanhã já é mais um dia na Julliard.
November, 10th 2013 - Barclays Center - New York
Ainda havia tantos ajustes que estavam me deixando preocupada. Meu vestido para a final estava ali, mas o da festa havia desaparecido. Não aguentava de ansiedade, estava nervosa demais.
-Come uma maça pelo menos. - Amy tenta me empurrar algo para comer faz meia hora, mas o nervosismo não deixa.
-Preciso saber do meu vestido.
-Eu estou tentando achar o Edward, e ligando para aquela babá, pra ver que horas ela irá chegar lá em casa, e não consigo. Então, Hanna, não reclame. - Ela viu o que eu faço sempre que estou nervosa: balançar as pernas. E rapidamente colocou a mão sobre a minha perna. - Do que tanto tem medo? - Pergunta ela.
A fitei, eu não sei se é medo, ou ansiedade, ou nervosismo, ou ambos juntos, mas ela sabe exatamente o porque eu estou assim, e ela me entende melhor que ninguém.
-Carl não estará aqui. - Amy ressuscita o nome que ouvimos com pouca frequência agora.
-Idiota, não me refiro à ele. - Respiro fundo.
-Acabei de entender o porque você ainda não saiu desse camarim. Hanna Miller, você está com medo de encontrar com o Bruno Mars por aqui? - Não, ouvir esse nome sempre é uma tortura.
-Calada. - Faço uma cara feia e acabo rindo.
-Sempre soube que você é apaixonada por ele até hoje. E isso que fazem seis anos da separação. - Ela conta nos dedos e ri. Meu rosto ruboriza.
-Não estou apaixonada por ele.
-Você o ama, mas custa a admitir isso pra si mesma. Será que ele olha o programa e vê você e lembra? Ou será que ele está nervoso que nem você por causa de hoje.
-Eu estou nervosa porque hoje é a final. - Balanço a cabeça e escuto sua risada.
-Você já passou por duas finais, e com essa é a terceira, e já está bem grandinha para ficar nervosa apenas por isso, não? - Como dizem, fui salva pelo gongo. A porta bate e logo alguém entra.
-Trouxe seu vestido, senhora Hanna.
-Obrigada, querida. - Atiro um beijo para ela.
Somos levados para a entrada, olhei para todos os lados para me certificar que ele não estaria por ali. Passei pela entrada principal, e ao lado dos meus colegas de bancada, nós entramos. Abanei para as pessoas, e depois para a câmera. Sento-me no meu lugar e olho rapidamente para o lado, certificando que Amy está ali, e Edward também já estava, e minha linda afilhada vestia um vestido perolado que a deixava mais linda.
Estou fazendo qualquer coisa que possa me distrair mais.
As apresentações começam. Três estão na final. Uma dupla de meninas, uma menina só, e um grupo de rapazes. Há tantas boybands nesse lugar que você acaba sabendo quando encontra um garoto que faça parte de uma. Assisti todas e me distraí, anotando todos os pontos e lembrando em quem votei das outras vezes. Agora, diferente de anos atrás, eu tenho poder de voz entre eles também.
Tento não escolher com o coração, e sim com a razão. Mas tudo isso é apagado quando retornamos do intervalo e a apresentação do Bruno é anunciada. Conheço muitas músicas dele, eu o admiro, e sempre admirei. Não seria minha grande burrada que mudaria isso. E também, eu devo admitir que o que eu sinto por ele não é nada normal.
As luzes foram apagadas e ele entrou, com a sua banda. Estar ali, de frente pra ele, como não fazíamos há muitos anos, me assustou. Me atormentou. Quando a música começou, meu coração palpitou mais forte, minhas mãos suaram tanto, mas tentei parecer o mais normal possível. Era um mashup³ de algumas músicas suas, umas três, e a agitação do povo era visível.
Seu olhar pairou sobre o meu, pelo menos eu acho, fiquei tão estática que não consegui fazer outra coisa ao não ser olha-lo.
A hora da verdade chegou, os três finalistas estavam sobre o palco e nós tínhamos que falar nossos votos, claro, com concesso entre nós. Mas foi quase unânime.
Natalie, a menina dos olhos intrigantes, ganhou. Foi bem merecido, ela canta tão bem, e soa tão angelical. Fomos dispensados para irmos nos arrumar e irmos para a festa. Fui para o camarim e coloquei meu vestido, e enquanto ia mandando algumas mensagens para combinar com a Amy onde eu estaria esperando ela dentro da festa, Rob fazia meu cabelo. Dei mais uma camada de rímel e retoquei o batom. Saí do camarim segurando minha bolsa de mão e cuidando para acabar não caindo. Ouço um barulho vindo de trás de mim, e quando me viro, dou de cara com o Bruno. Isso é um dejavú!
Nos encaramos, faltava palavras para assim talvez quebrar o silêncio. Não queria dizer nada, queria sair dali correndo, mas também queria entrelaçar meus braços em seu pescoço, acariciar sua nuca, e beija-lo, como nos velhos tempos.
-Doce Hanna. - Ele quebra o gelo falando algo, e sorrindo. - Quanto tempo?
-Bruno! - Sorrio também. - Muito tempo. - Estico minha mão para lhe cumprimentar e ele a pega e deposita um beijo no seu dorso.
-Acompanho você ás vezes...olha onde chegou! - Ele gesticula seus lados e eu rio.
-Eu acompanho você sempre. - Bruno me encara, não era exatamente isso que eu queria dizer, ele vai achar que eu sou obsessiva por ele, ou que tenho um santuário com seu nome. - Sempre que dá. - Sorrio tentando concertar e ele ri. - Sempre soube que você iria vencer na vida. - Coloco uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.
-Você me disse, quando nos conhecemos, que não podemos perder as esperanças, que quando uma porta se fecha, três se abrem. - Minhas bochechas ruborizaram, e eu senti como se tivessem pegando fogo.
-Talvez tenha dito. - Rio e ele também.
-Levo muita coisa que você me disse, comigo.
-Bom saber. - Respiro fundo e olho para o caminho que eu deveria estar seguindo.
-Desculpa estar te segurando, alguém deve estar lhe esperando.
-Não, ninguém além de mim mesma!
-Está sozinha?
-Sim! - Em todos os sentidos.
Been wondering if your heart's still open
(Fico me perguntando se seu coração ainda está aberto)
And if so I wanna know what time it shuts
(E, se estiver, eu quero saber que horas ele fecha)
Simmer down and pucker up
(Se acalme e prepare seus lábios)
I'm sorry to interrupt
(Sinto muito interromper)
It's just I'm constantly on the cusp
(É que apenas estou constantemente à beira)
Of trying into kiss you
(De tentar te beijar)
But I don't know if you feel the same as I do
(Mas eu não sei se você sente o mesmo que eu sinto)
But we could be together if you wanted to
(Mas nós poderíamos estar juntos, se você quisesse)
Ele canta baixinho, presto atenção somente na letra e sorrio, com o rosto mais vermelho do que nunca, ele passa a mão sobre a minha bochecha e ri debochadamente.
-Você está brincando comigo? - Serro meus olhos e ele ri mais uma vez.
-Estou rindo da sua cara, suas bochechas vermelhas. - Ele passa a língua pelos lábios.
-Então você quer me beijar, e nós poderíamos estar juntos se eu quisesse? - Pergunto franzindo a testa, meu receio é pela resposta, mas qualquer coisa eu contorno tudo isso.
-Não cantaria esse trecho nesse momento se não tivesse tudo haver com o agora.
Sua mão segura a lateral do meu rosto e minha pele arrepia-se toda com sua proximidade. Lembrar de todos os nossos momentos e estar prestes a beija-lo me remete aquela parte da minha vida, quando eu estava ao seu lado e não sabia valorizar nada que havia nela. Não vou dizer que me arrependo por estudar e estar onde estou, com dois empregos que não me consomem. Mas queria estar onde estou ao seu lado. Seus lábios levemente tocaram os meus e nosso beijo, finalmente, se aprofundou. Sua mão puxou levemente meu cabelo, e meus braços se entrelaçaram no seu pescoço. Eu esperei tanto por esse beijo.
-Porque você me deixou? - Pergunto quando encostamos nossas testas.
-Você quem quis assim, lembra?
-Mulheres são confusas, nós sabemos o que queremos, mas temos muito medo. Ás vezes dizemos um sim, querendo dizer não, e vice versa.
-E o que você quer agora?
-Você na minha vida novamente! - Respondo sem medo da resposta.
Ele calou com mais um beijo, eu não sei o que isso significa, mas eu não poderia estar me sentindo melhor do que estou! Eu o amo.
¹ - HAM significa "presunto" em inglês.
² - Bushwick é um bairro pertencente ao Brooklyn, em Nova Iorque.
³ - Mashup é uma música na qual contém duas ou mais músicas mixadas.
Essa fic também encontra-se no Spirit. Fiquem à vontade e obrigada por acompanharem. Atenciosamente, Adriana Nunes.
² - Bushwick é um bairro pertencente ao Brooklyn, em Nova Iorque.
³ - Mashup é uma música na qual contém duas ou mais músicas mixadas.
Essa fic também encontra-se no Spirit. Fiquem à vontade e obrigada por acompanharem. Atenciosamente, Adriana Nunes.

Que lindo, eu amei, simplesmente amei de verdade!!
ResponderExcluirVc e talentosa demais, e me fez chorar com este final!! Parabéns mais uma vez, vc tem um dom, um talento natural para encantar as pessoas!!
Simplesmente perfeita!